sexta-feira, 14 de abril de 2017

Certame






Certame

Fracasso no começo, fracassei.
Um passo para frente, fracassado.
Permito-me insucessos porque sei
que todo o meu porvir é bem passado.

Um caso recorrente, não cansei
das graças do malogro começado.
Sentindo-me seguro, baguncei:
Tem êxito o fracasso, desgraçado!

É tanto maneirismo não maneiro,
é nó de marinheiro no cordame,
emaranhado coração. Que dor.

Entanto vou adiante, em rotineiro
caminho para cima do tatame...
Meu lugar no certame? Perdedor.

***
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Aos delitos do corpo



Aos delitos do corpo

O corpo não é nada, meu amor,
só vale pelo espírito contido.
Entanto, se sou magro, definido,
o corpo é quase tudo, de se expor.

Deslumbro-me por força do valor
de um corpo que é meu ser porque tem sido.
Será que notarão que tem sentido,
sentidos e bom senso, tem calor?

Modelo de cidade pequenina,
nos longes de uma gleba bem chulé,
sou chulo à padronagem de piscina,

de praia, passarela, candomblé.
Desfilo no fracasso, na ruína,
ao ter um quilo a mais e não dar pé.

***
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Insônia dessedenta


Insônia dessedenta

Acordo porque a insônia me desseca.
Acordo porque a sede me deseja.
Acordo com suores de fubeca.
Acordo por um gole de cerveja.

É como pesadelo, filmoteca
com obras de terror, uma peleja
eterna do capeta na munheca
a golpes de azedume e de carqueja.

Anos a despertar pela manguaça.
Só sei que me cansei, que não tem graça.
Agora, o que fazer, fazer bem feito?

Vamos! Uma latinha não faz mal,
apenas para a hidratação da nau,
que ruma já de volta para o leito!

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A partir de um rocio madrugador




A partir de um rocio madrugador

Amanhece com chuva. Do lençol,
eu temo que ninguém se lembrará
de vir ao meu encontro, que não dá,
porque só chove, chove, não há sol.

Assim, se chove, chove, não há céu
que suporte esse chumbo de ababá.
Da cama para a sala, no sofá,
eu creio que não vem nem por anel.

Há chuva, não há sol. O que fazer
a fim de que essa ausência dê prazer
no peito solitário de quem ama?

Talvez a solidão não seja má,
e as águas, como em bodas de Caná,
a cinza sempiterna em vez de chama.


***
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domingo, 25 de dezembro de 2016

Ao retorno suturado



Ao retorno suturado

Retornem para mim para que eu possa
em desistência resistir a mim.
Revolvam o caído como joça,
ou geringonça de não flor, capim.

Eu peço por seus atos, por seu contra,
convoco seus poderes tão a fim
de fim no meu espírito de montra,
demonstrem que sou pó de botequim.

Enfim, eu sei que vem uma lufada
antes do furacão, mas não são nada
se comparados com o poder cruel

de Parcas suturando compaixão
com linhas de vodu no coração
que um dia aventurei por meu troféu.

*** Seguindo orientação do poeta e tradutor Renato Suttana, tento ritmos diferentes no soneto.
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domingo, 16 de outubro de 2016

Soneto sexista





Soneto sexista

Entrei numa polêmica questão,
metendo o meu genérico nariz.
Dum símbolo, emiti a opinião;
de modo generalizante, fiz.

Contudo percebi, não fiz bem, não...
Meu gênero por dentro, na raiz,
expôs-se para fora, sem roupão,
e “os povo” da geral, de seus covis,

clamaram: “Preconceito, seu machista,
seu filho de uma puta normalista,
metido a se meter em emissões

de ranhos, de melecas, opiniões,
com porra de nariz e de cabeça".
"Cabeça lá de baixo, não se esqueça!”.


***Img by Me and I.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sr. Lúcifer




Sr. Lúcifer

Sou Lúcifer, o pai da encruzilhada,
procuro por meus filhos, que só vêm
por ímã, por imagem, por além
da vida, pelo vão que vai ao nada.

Sou Lúcifer, teu mestre na quebrada,
exatamente quando choras sem
cessar, sem fundamento, por ninguém,
momento tenebroso da jornada.

Não temas a família a que pertences.
Eu peço que a respeites, e repenses
valores em falência, sancionados.

Coragem para o trânsito sinistro,
esquece-te de Cristo, do registro
dos bens do coração dos mal-amados.

*** Img by Heather Strom.
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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Cutucada





Cutucada

Cutuca-me nas costas. Eu mereço.
Perfura-me no dorso, tal toureiro,
trucida-me no dorso de adereço,
pintura de espanhol alvissareiro.

Cutuca-me. Perfura-me. Não peço
perdão. Não pedirei porque não queira.
Eu quero mas não posso. O meu processo
não cessa, o mais depressa à ribanceira.

Tocado. Comovido. Choramingas.
Depois das cutiladas, tu me xingas.
Só resta a minha queda ao precipício.

Um chute no lugar bem conhecido.
Em queda sou doutor, que sou caído
já desde que nasci, desde o princípio.

*** Img in Arco de Almedina.
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